Pojito Angelotti - Outubro de 2006

Vou procurar fazer uma analogia sobre o "processo do talento". Ele se assemelha a uma série de sementes invisíveis que possuímos desde que nascemos. Todos nós temos nosso punhado de sementes.

"Afinal, talento é algo que se aprende? Depende do quê? E qual a importância de se ter uma direção artística?".

Talento é um dom! Nascemos com ele.

Ao longo da vida, poderemos nem tomar conhecimento de que essas sementes existem ou, devido a um estalo ou à percepção de um sinal, poderemos semear e, após o tempo devido, colher os frutos gerados. Outra possibilidade é que uma delas caia no chão, na hora e lugar certos sem que percebamos, e comecem a germinar, surpreendendo-nos por ignorarmos a existência dela, e a todos os que nos rodeiam, por igualmente nem imaginarem que aquela semente pudesse estar em nós.

A questão é saber em que momento de nossas vidas essas sementes deixarão de ser invisíveis e começarão a nos agraciar.

Há pessoas que jamais vão descobrir talento algum em si mesmas, por não procurarem ou pela vida que levam não permitir a descoberta. 
Mas a questão é: "Em algum momento da vida, somos levados a enxergar esta semente, este dom que está dentro de nós".

Quantas pessoas visualizam uma semente, descobrem seu talento e, por estarem nas mãos certas, desenvolvem-no?

Outro fator importante é:  "O lugar certo na hora certa".

Não adianta estar em um grande centro onde tudo acontece, se o que o artista tinha que aprender na sua própria cidade ele deixou para trás achando fútil e desnecessário. Tudo tem que ser aprendido na hora certa e no lugar certo, o que for deixado para trás provavelmente vai fazer falta ou até impedir o desenvolvimento do talento. As lições estão onde tem que estar.

Imagine você, um Ronaldinho jogando futebol num campo de várzea de uma cidade interiorana (antes de ser o Ronaldinho da Seleção, claro!). Ele vê sua semente. Ele percebe uma plantinha. Algo nele o instiga a continuar fazendo o que gosta. Uma hora, sua estrela vai brilhar. O mesmo se aplica a uma Modelo altamente requisitada nos dias atuais, quando esta não tinha fama. Tente imaginar como ela era na sala de aula de uma faculdade, por exemplo. Ela se olha no espelho todos os dias, sabe que possui as curvas certas nos lugares certos. Mas falta alguma coisa. Investe em si, na forma de andar, no jeito, na personalidade, na etiqueta, até chegar o momento. Sua semente já é visível para ela, mesmo que não tenha toda a produção e mídia fazendo o trabalho de base.  Num determinado momento da vida, ambos estavam no lugar certo e na hora certa.  São descobertos!  E aí tudo muda de figura...

Como sempre, antes da descoberta do talento, a postura é mais despachada, mais tranqüila e sem nenhuma cobrança visual. O nível de exigência não é grande e a personalidade pode ser como a minha e a sua. Quando acontecem os primeiros raios da fama, o panorama tende a mudar. E o “mudar” pode não ser tão favorável assim. Se não houver uma direção artística, egos vão saltar.

Ao longo dos anos participando do Show Business e de gravações para as "Majors" (Grandes Gravadoras), pude conviver com muita gente. Orgulho-me hoje de poder oferecer a todos que trabalham comigo ou são produzidos por mim, uma direção de qualidade baseada nas experiências que tive. Todos aprendem muito sobre a forma de se desenvolver como artistas e, por conseqüência, eu também.

Chego à conclusão de que conter egos não é tarefa fácil, mas depois que se consegue o respeito, a disciplina, e o equilíbrio de um grupo ou artista iniciante, tudo se torna mais fácil, mas nem sempre isto é possível. Por vezes um ou outro se desgarra, acreditando "tudo saber", acreditando "tudo merecer" sem precisar nada investir ou aprender. Morrem na praia, desiludidos e revoltados.

Tive a oportunidade de conviver com o mundo artístico e de estar nos bastidores de dezenas de programas de televisão. Outra experiência enriquecedora foi a que vivi durante anos em vários estúdio de São Paulo. Essas passagens foram um verdadeiro estudo sobre como se desenvolvem os talentos e como se enganam as pessoas que acham que não precisam de direcionamento artístico, que "sabem tudo". Se espatifam na decolagem.

Uma coisa é indiscutível: pessoas que desenvolvem algum talento específico precisam de alguém que, permanentemente, oriente-lhes e incentivem suas ações. Dificilmente artistas caminham sozinhos ou desenvolvem a conduta correta em suas artes sem amparo específico. Funciona como um pai para colocar equilíbrio e chamar a atenção para as coisas erradas, e um avô, para passar a mão na cabeça e dizer que é lindo e pode funcionar.

Todos os artistas, sem exceção, necessitam dos cuidados de alguém dos bastidores pois, em algum momento do percurso (senão sempre), eles "perdem a noção de referência", vêem uma realidade transfigurada e acabam convivendo com uma dose de depressão. Diversos fatores impulsionam isso: descontentamento com a falta de reconhecimento do público, sensação de que sua arte não progride, solidão, desconforto e uma certa inadequação com o mercado e a concorrência, insuficiência financeira para se manter...e a lista não para por aí.

A partir daí, a vida pessoal acaba se misturando com a arte. A emoção é dominada de tal forma que mexe com a conduta, o ego, deformando a personalidade, corrompendo-a. O próprio espírito se transfigura a ponto de mudar a beleza de sua arte.

Certa vez li duas frases que nunca esqueci:

     "Talento só, não basta."

     "Todo gênio cria para si a própria desgraça!"

Carreira mal direcionada é como uma montanha-russa: o carrinho pode até ser lento na subida, mas... "é extremamente veloz na descida".

Pessoas que não têm o menor dom, se colocarem uma força de vontade excepcional, podem fazer germinar uma semente e se surpreenderem. São raridades, mas conheço casos assim. O tempo fez o trabalho de florescer. Essas pessoas têm que se mostrar extremamente envolvidas e comprometidas com sua arte e, principalmente, consigo mesmas. Para elas, a semente não se torna visível tão facilmente. Suas tentativas devem ser feitas com bastante veemência para se desenvolverem. Aqui entra o fator motivacional dos envolvidos no processo: professor não desiste do aluno e vice-versa...Produtor não desiste do Artista e vice-versa.

Para aqueles que descobrem seu dom, ocorre uma constante: assim que ele se manifesta, a primeira tendência é uma elevação automática da auto-confiança. Se isso vem acompanhado de uma certa publicidade, "pode-se criar uma proporção geométrica na aceleração nociva do egocentrismo". Caso o artista tenha uma "personalidade fraca ou volúvel", esta poderá ficar totalmente depauperada, pois não terá preparo emocional para lidar com o sucesso instantâneo, que tende a se esvair, levando consigo a raiz daquele broto que prometia. O processo é semelhante ao que acontece com aquelas pessoas que ganham fortunas na loteria e, da mesma forma que ganham, gastam desmensuradamente. O dinheiro evapora em pouco tempo e ela, frustrada, volta ao patamar anterior. Pudera, não havia um preparo pessoal para uma mudança tão drástica. É essa consciência necessária aos Produtores.

Outras vertentes dizem respeito a um certo "fanatismo pela arte", onde a pessoa só fala daquele assunto. Sem a direção adequada, o mundo do aprendiz resumir-se-á a uma redoma: ao sair daquele campo, ele poderá sentir-se um peixe fora d'água. Pudera, negligenciou outras áreas. Em vez de encontrar um equilíbrio, seus valores ficam centrados naquele determinado assunto. É o tradicional chato de plantão, que só fala do mesmo tema aonde quer que vá e com quem quer que fale. Isso terá fim exatamente no momento em que ele se cansar, exaurir suas forças e seu dom. O que antes era natural torna-se uma obrigação. Sua calma desaparece e esvai-se o encanto.

Essa supervalorização do “eu” mina o campo de atuação. Qual a hora então de se supervalorizar? Simplesmente não existe. O artista talentoso não pode pedir desculpas por ser talentoso, muito menos deve ater-se a um "exagero de vaidade" a ponto de isolá-lo de quem mais o aprecia.

É a questão do tirar uma foto com alguém ou dar um autógrafo. Isso faz parte da carreira de todo artista apreciado e reconhecido. Podem passar décadas, mas a atenção que se dava aos primeiros fãs deve permanecer igual. Os que assim não procedem foram corrompidos no tempo pelo sistema e pela ilusão de seu ego. Infelizmente eu conviví com tal procedimento de um certo Mega Star com o qual trabalhei. Eles tinham mais de 60 fãs clubes quando começaram....hoje têm apenas 2.

Executar uma direção artística é, também, colocar os pés de quem tem talento no chão, não deixar os egos inflarem, "informar quando o artista está além da conta" ou fora da realidade cabível em cena. Quem não recebe esse estilo de direção muda de forma extraordinariamente rápido, maculando, em pouco tempo, a imagem construída.

Pode acontecer de seu primeiro Produtor não estar presente por muito tempo.  Portanto, é importante que o artista ou banda  encontre e confie em alguém que possa continuar lhe dirigindo.  Isso é fundamental no seu desenvolvimento ao longo dos anos, caso opte por uma carreira profissional. Se for possível continuar com o mesmo Produtor na sua Direção Artística, provavelmente  todos ganharão muito pois a personalidade do trabalho será mantida.

A escolha de alguém competente é difícil.  Você nunca saberá se está com a pessoa certa lhe dirigindo se não tentar.  Preferencialmente, deve ser alguém competente, que conhece a área de música, shows, tv, bastidores e que possa lhe orientar nas situações de maior dúvida.  Principalmente alguém de bom senso e equilibrado.  Esta pessoa vai lhe dizer o que é e o que não é, o que serve e o que não serve.  Assistindo as suas apresentações, terá que ser extremamente crítico.  Alguém pronto para efetuar correções e melhorias.

"Aplausos e publicidade tiram o equilíbrio psicológico dos   
         artistas e os tornam escravos da aparência".

E vivendo da aparência, dificilmente um artista consegue manter-se em equilíbrio, principalmente no lado financeiro. Eles perdem a mão das finanças, acabam vendendo o almoço para comprar o jantar. Essa tendência mostra-se ainda no lado emocional e, fatalmente, penderá para uma carência no aspecto racional.

Por outro lado, artistas que têm o "lado racional" desenvolvido demais "não são tão bons artistas assim", pois possuem a tendência de se tornarem "mercenários de sua arte". Eis a necessidade da direção. Uma pessoa equilibrada que não se atém a bater de frente e falar verdades quando acha necessário.

Eu, até hoje, não consegui encontrar nenhum artista que tivesse equilíbrio exato de 50% emocional e 50% racional. Sempre pende para um dos lados. Nesse caso, é preferível que seja para o emocional. O racional tenta encontrar pontos em seu próprio talento para humilhar todos a sua volta. Este provavelmente ficará sozinho.

"Talentos não se criam, são descobertos. O mundo os elege!”