1. A consagração dos selos pequenos.

2. Mercado Discográfico.

3. Falsos Artistas.

4. A Gravação vai começar! E agora?

5. Multis usam Jabá para censurar a Produção Musical Brasileira.

6. Brasília combate o Jabá.

7. A pirataria de CDs e o flagelo do “jabá”.

8. A Cobrança do ECAD!

9. O ECAD na prática.

10. Conexão Tecnológica.

11. Multis boicotam produção musical brasileira para favorecer a da matriz.

12. Ordem dos Músicos.

 

 

 

 


1.A consagração dos selos pequenos

Jam Music, Lua Discos, Panela Music, Net Records, Acari e muitas outras gravadoras de pequeno porte invadem mercado brasileiro em diversos gêneros e com formas alternativas de distribuição

Rodrigo Faour
28/12/2000

O ano 2000 foi de afirmação total para os selos fonográficos de pequeno porte. Jam Music, Lua Discos, Xiclete, InterCD, Acari, YBrazil?, Blues Time Records, Paulus, Instituto Suba, Órbita Music, Thanx God Records, Palavra Cantada, Regata e Net Records foram alguns dos que chegaram ao mercado este ano. Isto sem contar alguns outros que se consolidaram em 2000, como Dubas, Sesc-SP, Rockit!, Trama, Nikita, Atração e CPC-Umes. CliqueMusic foi verificar os trunfos de alguns desses selos e descobrir quais são as principais dificuldades que eles enfrentam para seguir adiante.

A Jam Music, gravadora da cantora Jane Duboc e do empresário Paulo Amorim (dono da casa de shows paulista Tom Brasil) lançou em menos de um ano14 CDs de artistas consagrados como Ângela Rô Rô, Tunai, Célia & Zé Luiz Mazziotti, Jane Duboc & Sebastião Tapajós e de novatos, como Bena Lobo, Bukassa, o grupo Curupira, entre outros. E promete finalizar mais três até o começo do ano que vem: o CD de estréia da filha de Djavan, Flávia Virgínia, o da veterana Alaíde Costa (só com músicas de carnaval, em ritmo ralentado) e um tributo a João Nogueira, com artistas que vão de Beth Carvalho a Emílio Santiago e Zeca Pagodinho. Jane diz que não há segredos para explicar tamanho sucesso.

"Todo mundo que está na Jam é do ramo, nasceu com a música no sangue. Com nossa experiência musical de 300 anos (risos), sabemos o que é verdadeiro. Em menos de um ano, viramos uma família muito grande, diferente do que já vivenciei por aí em outras gravadoras. Em termos musicais, acertamos em cheio na escolha de arranjadores, músicos, capistas...", orgulha-se a cantora. Ela diz, no entanto, que há apenas dois pontos mais frágeis. "Queremos montar uma equipe forte de divulgação, achamos que todos os nossos artistas têm capacidade de fazer belíssimas apresentações em TV, por exemplo. Também pretendemos melhorar nossa distribuição. Como a Jam tem muitos títulos de gente desconhecida do grande público, como Bukassa e o Jay Vaquer, enfrentamos dificuldades na distribuição nacional", analisa.

Preocupado com o valor artístico de seus títulos, o compositor Thomas Roth abriu a Lua Discos e diz só ter motivos para estar feliz com sua empresa. Depois de lançar os CDs dos cantores Rebeca Matta e Cláudio Nucci, a gravadora promete títulos bastante sugestivos para o ano que vem, que vão de bambas veteranos como o sambista Casquinha (com participação da Velha Guarda da Portela e Aldir Blanc) e de Guilherme de Brito (com participações de Cássia Eller e Luiz Melodia, com direito a cinco sambas inéditos em parceria com Nelson Cavaquinho), passando por Jards Macalé (cantando Moreira da Silva, com participação de Marcelo D2 e possivelmente Zeca Baleiro), Simone Guimarães, Filó Machado e Lupa Mabuze. "O que privilegiamos é o respeito integral ao trabalho do artista, aceitando sua opção, permitindo que ele grave o que de fato deseja. Por isso frisamos o slogan da gravadora: Lua Discos - a Alma do Artista. Estamos buscando a verdade", defende Roth.

O produtor se preocupa até em não tirar os artistas de seus estados natais para não prejudicar o processo de criação. "Apesar de termos estúdios próprios, tentamos viabilizar dentro do possível o projeto dos artistas. Rebeca gravou na Bahia como ela quis e com quem ela quis. Não ficaram em São Paulo, isolados e tristes num hotel", diz. Assim como a Jam, a Lua Discos tem alguns problemas com a distribuição, atualmente a cargo da Azul Music. "Ela é uma distribuidora pequena e o mercado de distribuição no Brasil não é fácil. Há uma inadimplência, como há em quase tudo no país. Mesmo assim, estamos felizes, porém lutando com muita dificuldade. Cada disco vendido é uma alegria."
Saídas possíveis para a distribuição.

Por outro lado, a Net Records e a Panela Music estão saindo vitoriosas na guerra da distribuição, criando formas alternativas de fazer seus CDs chegarem até o consumidor. Leonardo Bourbon, da Net, conta que o embrião de sua empresa foi o CD independente A Vida É Doce, de Lobão, que chegou às 100 mil cópias vendidas com distribuição apenas em bancas de jornal. A partir daí, Leonardo estruturou sua gravadora que já lançou o novo CD da banda paulista Karnak (Estamos Adorando Tokio) e põe na praça nos próximos meses os CDs de Kátia B, Vulgue Tostoi, Autoload (grupo de música eletrônica) e do guitarrista Nando Chagas. Segundo Leonardo, a principal dificuldade dos selos alternativos é empresarial. Ele crê que seus colegas ficam de olho nas bases artísticas da gravadora e esquecem da importância de ter seus CDs bem distribuídos no mercado.

"A saída é ir montando alternativas próprias. A banca de jornal é um meio alternativo de massa. Temos no país mais bancas de jornal que lojas de CDs. São 20 mil no Brasil inteiro. Em contrapartida, a Internet funciona como canal de marketing, como formador de opinião, pois no varejo sua influência ainda é restrita", avalia Leonardo, que já lançou o site da gravadora: www.netrecords.com.br. Ele admite, no entanto, que emplacar um artista ainda sem nome nas bancas é muito mais difícil que um consagrado.

Pierre Aderne, da Panela Music, tenta vencer essa dificuldade correndo para outros meios de venda de discos. Além de ter CDs distribuídos nas bancas e principais livrarias do país, por vezes, encarta-os em jornais. "Neste mês, lancei Oswaldo Montenegro (Escondido no Tempo), encartado na Tribuna do Norte. Em uma semana, vendi 10 mil cópias, algo que é muita coisa numa cidade como Natal", anima-se o produtor que tem contrato com 440 jornais do interior do Brasil e outros 27 de capitais para comercializar os discos de sua gravadora - a experiência, ele trouxe da época em que vendeu milhões de discos de Cid Moreira lendo salmos, encartados em jornais populares.

A Panela Music já conseguiu até seu primeiro disco de ouro pela venda do CD de Oswaldo Montenegro e vendeu cerca de 50 mil cópias do novo disco da Blitz. Seus planos são ambiciosos. A gravadora pretende lançar no começo do próximo ano o novo disco de Leo Jaime, o solo de Pierre Aderne e o coletivo A Festa da Música Brasileira, com 16 artistas do festival de novos talentos que a gravadora produziu no Garden Hall (RJ), vencido pelo grupo Baia e os Rock Boys. "O Baia ganhou como prêmio 100 horas de gravação no AR, o maior estúdio da América Latina, além receber a patente do próprio tape", explica ele, alertando que sua firma pretende ir além de uma simples gravadora. Ela quer incentivar os novos artistas com prêmios como esse ou com uma simples consultoria.

"Como recebemos cerca de 50 CDs por semana de artistas de todo o Brasil, independentemente de lançá-los, damos conselhos para essa galera, mostrando como é que eles podem viabilizar seus trabalhos", conta Aderne. Em 2001, a Panela pretende incrementar suas parcerias, como a que começou a desenvolver com selos como o Ramax, da Elba Ramalho, que lançou o CD do grupo Fuba de Itaperoá, e promete que o foco da gravadora será maior em novos talentos. A Panela pretende também vender música por download, através de uma homepage que será inaugurada dentro de poucos dias. Os alternativos começam a chegar lá

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2.Mercado Discográfico
Artigo de Flávio Medeiros

Vamos conversar um pouco sobre o nosso mercado discográfico e sobre o chamado mundo do show business.

Eu recebo muitos e-mails - principalmente de artistas, bandas e compositores -, perguntando como fazer para lançar um CD e como conseguir uma gravadora: pois bem, hoje as coisas são bem diferentes do que se imagina.

As gravadoras já não saem às ruas atrás de artistas para lançá-los; já foi o tempo. A maior parte delas está com sérios problemas financeiros devido à própria prostituição do mercado (os populares jabás e propinas), além da pirataria.

As gravadoras querem sim, investir em um artista que já tenha uma perspectiva de mídia, vendagem e trabalho semi-pronto e, de preferência, com um empresário por trás que possa aliar-se a ela em futuros investimentos, dentre eles: divulgação, mídia falada e escrita, rádio e TV e promoções em geral.

O artista ou banda que chegar hoje em uma gravadora com um CD já gravado, de boa qualidade e comercial, tem muito mais chances de ser contratado, pois será quase impossível que elas gastem com a produção do CD de um artista iniciante e sem perspectivas de venda, por mais talento que esse artista tenha.

As gravadoras hoje têm investido mais fortemente nos serviços de distribuição, tendo como vantagem o poder de barganha perante as rádios e TVs, utilizando os artistas já famosos que fazem parte de seu casting. Trocando em miúdos: esqueça a gravadora logo a princípio. Se você fizer o seu próprio CD, contratando músicos e produtores por sua conta e trabalhando com profissionalismo, você já leva grande vantagem e acaba ficando mais fácil negociar futuramente seu trabalho com uma gravadora.

É injusto ??? Talvez.

Por outro lado, sem o envolvimento da gravadora na elaboração de seu CD, você e o produtor podem fazer um CD livre de segmentos de mercado e com uma de característica mais realista e objetiva, deixando o álbum com uma personalidade única, o que, convenhamos, é bem melhor do que ter que obedecer regras de mercado impostas pelas gravadoras, muitas vezes ditadas por diretores artísticos que não pensam em outra coisa a não ser no dinheiro das vendas. É lógico que isso é importante, mas... e a arte musical, para onde vai ?? E a originalidade ?

Pense bem... Muito do que se torna sucesso nos dias de hoje é porque é novidade, é original... Diferente. Novo.

Jamais grave seu CD com a intenção de copiar a essência de um determinado artista de sucesso pois este é um erro fatal e quem vai perder é você, que irá competir diretamente com esse nome já consagrado. Faça algo novo, de preferência, algo que você goste e não tenha que ser falso para o público. Pense na hora do show, como você vai se comportar... Será que o seu som se parece com você ?? Isso é importante.

Outro ponto bastante delicado é a figurinha difícil e complicada chamada Empresário. Pense nele como seu representante e sócio. Assim, busque um empresário que pense como você e goste do seu som, que possa representar você em uma negociação e que queira ganhar junto com você.

Certifique-se de que vocês possam tomar decisões juntos a ponto de não precisarem ficar inspecionando um ao outro o tempo todo. E, o principal, façam tudo às claras - , afinal, esse empresário pode vir a investir em seu CD, "bancando" toda a gravação e esses gastos, obviamente, terão que ser ressarcidos um dia.

Concluindo: se você quer entrar no mercado e está convencido de quem tem talento, segurança e certeza disso, tente antes buscar o empresário para que ele invista em você. Se não conseguir encontrá-lo e tiver condições próprias de bancar uma gravação, faça... mas faça bem feito. Não entre em estúdio com o simples propósito de fazer uma demo pois, se as gravadoras não estão dispostas a gastar com a gravação do seu CD, por que mandar uma simples demo para elas ??? Então, trate de criar um novo som, de qualidade e que tenha personalidade própria para que possa conquistar os devidos fãs. Faça contato direto com o público apresentando-se ao vivo sempre que possível.

Além do mais, atualmente, está sendo melhor andar com os próprios pés do que mal acompanhado, mesmo que haja um certo sofrimento. A Internet abre as portas para que os artistas possam mostrar o seu trabalho para o mundo inteiro com mais rapidez e com maior possibilidade de lucros.

Você também pode vender o seu CD diretamente para o consumidor, com um preço mais baixo do que o praticado nas lojas e ter um maior lucro financeiro e profissional. Lembre-se: você tem que agradar ao seu público e não aos figurões da gravadora pois, se o publico te aceitar, logo eles terão que se render ao seu sucesso. Os DJs, aliás, são excelentes aliados nesta fase de divulgação: amigos DJs são armas poderosas desde que o seu som tenha algo em comum com o que eles estão acostumados a tocar.

Estas informações são específicas para artistas novatos - sendo assim, não se aplicam a artistas já em evidência no mercado, pois os caminhos podem ser diferentes e também não existe uma regra para o sucesso. Existe, sim, maneiras menos dolorosas para quem quer tentar.

Para os compositores que queiram ver suas músicas interpretadas por algum artista já conhecido, recomenda-se enviar as suas obras para as respectivas editoras - neste caso, voz e violão é o recomendável.

Por fim, caros amigos, por mais difícil que seja estabelecer-se no mercado, fazer o povo escutar suas músicas e conquistar o seu sonho... não desanimem diante do primeiro obstáculo. Encarem-no como aprendizado, um incentivo. O mais importante de tudo é que você consiga mostrar ao público a sua arte, o seu talento, pois é ele que será responsável pelo seu sucesso e sua satisfação profissional.

Boa sorte !

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3.Falsos Artistas
Por Flávio Medeiros

Eles estão em grande quantidade no Brasil:
os falsos artistas ... ou artistas "meia-boca"

Sendo eu um artista e tendo dedicado tempo, dinheiro e estudo para tornar-me um profissional, fico indignado ao ver tanta farsa nas rádios e TV já há algum tempo. Os falsos artistas são elogiados e tratados como artistas de verdade pela mídia que se diz "especializada".

Se você é esperto, certamente já percebeu quem são e quais as suas características. Entretanto, muita gente ingênua acredita no artista fajuto, compra o seu CD e, pior, ainda paga caro para ir ao show do dito cujo, que normalmente é dublado, não se dando conta de que está sendo feito de idiota.

Fico ainda mais indignado ao ver pessoas da mídia, especialmente apresentadores de programas de rádio e TV, coniventes com essa palhaçada e ajudando a enganar os pobres desenformados.

Ah... que falta faz o saudoso apresentador Flávio Cavalcante, que não pensava duas vezes e quebrava os discos dos maus artistas ao vivo em seu programa de TV !

Enfim... como o povo brasileiro não reclama de nada mesmo acaba engolindo muito sapo: falo especialmente de cantores e instrumentistas que sobem ao palco para dublar e fingir fazer algo que não sabem, ocupando assim o espaço de quem tem talento e se dedica à arte.

CHEGA!!

Precisamos dar um "basta" e tirar o nariz de palhaço, pessoal.

Diga não ao falso artista. Vamos vaiar e exigir respeito.

Vou então jogar a porcaria no ventilador e confirmar um dos "podres" deste ramo: de fato, os boatos que dão conta de que cantores podem ser afinados em estúdio são pura REALIDADE já que nós, produtores, dispomos de recursos tecnológicos para tal e dele fazemos uso quando preciso. Este recurso, que foi criado com a intenção de permitir pequenas correções em grandes interpretações, lapidando o que já é bom, está sendo usado demais. Sendo intensamente utilizado, acaba por tornar grandes desafinados em pretensos "cantores profissionais".

Mas um detalhe: não adianta culpar-nos, técnicos e produtores, por fazermos o nosso trabalho e nos utilizarmos deste recurso com falsos artistas - até porque ganhamos muito bem para afinar alguém. Na prática, quanto mais intensa for a desafinação, mais tempo se gasta dentro do estúdio consertando os erros. Para nós, isso é ótimo. Se você quer falar mau de alguém por causa disso, aí vai a minha dica.

ACHINCALHE O EMPRESÁRIO E A GRAVADORA.

Tolo é quem gasta e investe em gente assim - ou seja, os empresários que gastam uma fortuna criando falsos artistas. É público e notório que existe um mercado que fomenta este tipo de enriquecimento - assim, esses patrões acabam ganhando bem em cima da ignorância cultural nacional.

Eles, sim, é que precisam ser apontados como os verdadeiros culpados ... Aliás, se esses investidores tivessem um bom prejuízo fazendo isso, talvez a situação não estivese do jeito que está.

Então, cabe a todos nós fazermos a nossa parte para "quebrar" essa gente oportunista. Descubra primeiro quem é realmente talentoso e quem não. O julgamento não é tão complicado: se o artista diz-se um "cantor", tem que cantar bem. Não adianta ser "tão bonitinho" ou "dançar muito": o sujeito TEM QUE CANTAR se quer ser chamado de cantor. Oras bolas: bonitinho é modelo. Quem dança bem é dançarino. Cada macaco no seu galho, ok ?

Prosseguindo: se o cantor dublar... xiiiii ... descarte-o: ainda mais se estiver em um show cujo ingresso constava como "ao vivo". Esse é o pior tipo de farsante, merecendo ser vaiado e seu empresário, preso. Agora... se o show for vendido como "playback", cabe a você decidir se seu dinheiro é capim e comprar o ingresso. Essa regra também vale também para certos "instrumentistas", dubladores de violão, por exemplo... uma piada.

Mas o mais importante é que você tenha a certeza de que está diante de uma farsa e passe esta informação. Recuse a ser enganado: defenda-se, mudando de estação se ouvir sua música na rádio. Quando aqueles que investem em artistas fabricados começarem a ter prejuízo, vão precisar mudar de estratégia... ou de ramo.

Entretanto, não seja rude ou injusto: quando você estiver em um bar (com música ao vivo, por exemplo), e não gostar do trabalho do artista, tente analisar a situação com frieza. Se o couvert for desproporcional à qualidade da música, queixe-se ao proprietário ou gerente - mas não ao músico. Lembre-se: nem todo músico tem que ser um astro virtuoso. Tenha em mente que alguns estão começando e precisam de um incentivo... mas o preço deve ser justo.

Mas não esqueça o objetivo principal deste ensaio: denunciar a verdadeira fábrica de falsos artistas e suscitar a sua consciência para que se dê valor a quem verdadeiramente TEM valor.

Afinal de contas... você gosta de ser enganado ?

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4.A Gravação vai começar! E agora?
Por Flávio Medeiros

Dicas para que vai gravar em estúdio profissional!

Pois é... A gravação vai começar!
É normal ficar inseguro antes de uma gravação, afinal, é seu trabalho que esta em questão. Mesmo tendo um produtor cuidando do conceito e qualidade do álbum, nem sempre o artista consegue controlar a ansiedade pelo álbum pronto, principalmente aqueles que são marinheiros de primeira viajem e não conhecem as varias etapas de uma produção e sua metamorfose.

Quando há um produtor assinando a produção lembre-se de que a responsabilidade dele é grande não só pela função que exerce, mas também pela performance dos demais envolvidos na produção.Todo o resultado esta diretamente ligado ao estado de espírito dos envolvidos, portanto também é função do Produtor poupar psicologicamente e fisicamente os que estão por sua responsabilidade. Pensando assim, você já consegue imaginar como deve ser o entrosamento de todos, como o relacionamento e a disposição são importantes neste trabalho e onde você poderá ajudar, melhorar o próprio rendimento e evitar problemas.

Sendo assim deixo aqui dicas pessoais que costumam facilitar a vida em uma produção profissional. Vamos lá:
Procure tornar suas horas de gravação em algo prazeroso, se possível também confortável e livre de preocupações. Aqueles que trabalham ou já produziram comigo os seus discos sabem como faço para fazer do nosso trabalho que é serio numa atividade descontraída e divertida.

Se estiver cansado ou sem rendimento, não insista, suspenda a gravação e retome outro dia. Há dias em que mesmo empolgado a gravação não satisfatoriamente, então não fique frustrado ou chateado se o produtor suspendera gravação, amanhã é outro dia e poderá ser o dia “D”.

Durante os períodos de gravação, evite baladas e se cansar à toa, fisicamente você talvez não se canse na gravação, mas com certeza, o seu cérebro passará por uma maratona.

Leve pro estúdio coisas das quais irá precisar como: Agasalho, (faz frio dentro do estúdio), acessórios sobressalentes para uma eventualidade tipo cordas de violão, palhetas, fontes, entre outros.
Se uma banda estiver gravando, haverá momentos ociosos entre um e outro instrumento, ocupe-se de forma produtiva e em silencio (se possível for).

Se aparecer duvida, pergunte sempre, e se esclareça, se não entender insista, nunca se deixe enganar por oportunistas, pois há explicação ética e natural para tudo.
Evite discussões e falta de tolerância dentro do estúdio... Se algo esta ruim, fatalmente ira piorar se perder o controle. Lembre-se do estado de espírito.

Não deixe nunca o nervosismo estragar sua performance, principalmente dentro do estúdio. Pense bem, você estará entre 4 paredes, e poderá errar e poder voltar para corrigir o menor detalhe, sem vergonha, sem platéia, sem afobação.
Costumo a dizer que o único inimigo de uma boa gravação é o tempo, portanto converse bem com seu produtor sobre como otimizar os custos para que você não fique neurótico com o relógio, alias, o tempo voa dentro do estúdio.

Boa sorte!

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5.Multis usam Jabá para censurar a Produção Musical Brasileira.

O principal papel cumprido pelo jabá pago pelas multinacionais para que suas músicas toquem no rádio e na TV tem sido o de impedir que o público tenha acesso à maior parcela do que de melhor se produz em termos de música brasileira. Mais do que um meio imoral e ilegal de promover as vendas, o jabá converteu-se numa forma intolerável de censura

De janeiro a junho de 2004, a Warner lançou sete CDs de música brasileira (incluindo pop/rock cantado em português): Kelly Key (Ao Vivo), Os Travessos (Ao Vivo), Catedral (O Sonho Não Acabou), Detonautas (Roque Marciano), O Rappa (O Silêncio que Precede o Esporro), Gino e Geno (Os Sucessos), Nana, Dori e Danilo (Para Caymmi). O faturamento anual da Warner Music Brasil é da ordem de R$ 170 milhões.

No mesmo período, a gravadora CPC-UMES, cujo faturamento anual é cerca de quatrocentas vezes menor, também lançou a mesma quantidade de CDs: Brazilian Trombone Ensemble (Um Pouquinho de Brasil), Céline Imbert e Marcelo Ghelfi (Vinícius, Sem Mais Saudade), Claudia Savaget (Caminhando), Gesta (A Chave de Ouro do Reino do Vai-Não-Volta), Vésper (Ser Tão Paulista), Estação Caixa-Prego (Brasileirando), Mário Eugênio (Sonoridade).

Não vamos falar de qualidade musical e consistência cultural. Com exceção da família Caymmi, os outros seis discos lançados pela primeira dificilmente passariam nos critérios de seleção da segunda. Os sete CDs da CPC-UMES apresentam o melhor grupo de trombones do mundo, a maior diva do nosso canto lírico, a intérprete preferida de Cartola, um conjunto armorial apresentado por Ariano Suassuna, um vocal avalizado pela presença ao vivo e a cores de Chico Buarque numa das faixas, uma alegre incursão pelos ritmos nordestinos, um violão de suavidade comparável a do saudoso Paulinho Nogueira.

O fato mais significativo é que no plano quantitativo a produção (de música brasileira) de uma pequena gravadora nacional tenha atingido o mesmo patamar de uma das cinco mega-corporações multinacionais que assolam o nosso mercado.
Alguém poderia pensar que a CPC-UMES se constitui numa exceção entre as gravadoras nacionais e que a performance da Warner não é representativa do desempenho de suas co-irmãs.
Fixemo-nos então na Universal, a maior das cinco, tanto no Brasil quanto no mundo, empresa que inclusive apresenta-se como “um raro caso de vitalidade cultural na indústria fonográfica”.

Consultando a relação de integrantes de seu cast, encontraremos pérolas de inquestionável raridade: Babado Novo, É o Tchan, Carla Xibombom Cristina, as apresentadoras de televisão Babi e Gabi, Netinho, Paulo Ricardo, Kid Abelha, Nando Reis... Quanto à “vitalidade cultural”, não há, portanto, diferença perceptível entre Universal e Warner.

De janeiro a junho de 2004, a Universal lançou doze CDs de música brasileira. A Biscoito Fino, gravadora nacional, criada há menos de cinco anos, lançou dezenove: Joyce, Sérgio Santos, Paulo Moura, João Carlos Assis Brasil... e até Michel Legrand, interpretando Luis Eça, só para humilhar a oponente.

Restam Sony, BMG e Emi. Juntas, lançaram, sempre de janeiro a junho de 2004, vinte e nove CDs. Confrontemos esse número com a produção das seguintes gravadoras nacionais: Kuarup, Indie, Velas, Eldorado, Rob Digital, Dubas, Lua, Movie Play, Trama, Camerati, Núcleo Contemporâneo, Jam, Som da Maritaca, Marari, Atração, Acari, Carioca, Rádio MEC, Revivendo, Cid, Zabumba, Lumiar, YB, MCD, Visom, Palavra Cantada, Albatroz, Elo, Sonhos e Sons, Minas, Lapa, Pôr do Som, Maianga, Net, Reco-Head, Natasha, Nikita, Dabliú, Fina Flor, Pantanal, Galpão Crioulo, Sapucay, Zan, Paradoxx, Candeeiro, Baratos Afins, Paulus, Deck, Chororó, Barulhinho, Acit, Quitanda, Terreiro, Aconchego, Chita, Outros Discos, Top Tape, Villa Biguá, Play Art, Azul, Pau Brasil. Chegaremos facilmente a 150 CDs, contra 29 das três majors.

Acrescentemos, ainda, uma meia centena de CDs lançados por gravadoras nacionais não relacionadas na lista, e outra meia centena produzida por artistas independentes, sem o concurso de qualquer gravadora. Teremos 276 novos lançamentos, contra 48 das cinco majors. Para que o mapa fique completo, é necessário situarmos a produção da Som Livre. Ao contrário das demais gravadoras nacionais, o braço musical das Organizações Globo possui grande poderio econômico e fácil acesso à mídia, porém encontra-se hoje limitado quase exclusivamente ao lançamento de trilhas de novelas produzidas a partir de fonogramas cedidos pelas mega-concorrentes.

Vê-se que as gravadoras nacionais e artistas independentes alcançaram uma produção que, tomada em conjunto, é significativamente superior à das cinco multinacionais, em termos de qualidade e quantidade. No entanto, a situação se inverte quando comparamos as respectivas participações nos mercados de execução pública e venda de CDs. Warner, Universal, Sony, BMG e EMI monopolizam 85% de ambos. Sem a Som Livre, gravadoras nacionais e artistas independentes, somados, não passam de 3%.

Trata-se de uma situação inteiramente absurda, insustentável, mantida de forma criminosa pelo jabá que as multinacionais pagam para que suas gravações sejam executadas até a exaustão nas emissoras de rádio e televisão. O uso e abuso dessa modalidade de suborno faz com que, cada vez mais, qualidade e diversidade, marcas registradas da música brasileira, sejam banidas dos meios de comunicação e, conseqüentemente, das prateleiras das lojas.

Para se aquilatar o nível atingido por essa deformidade, destaquemos alguns artistas que estão fora dos casts das cinco multinacionais: Paulinho da Viola, Alceu Valença, Gal Costa, Toquinho, Bethânia, Erasmo Carlos, Lobão, Edu Lobo, Geraldo Azevedo, Elomar, Inezita Barroso, Beth Carvalho, Nei Lopes, Alcione, Luiz Carlos da Vila, Jair Rodrigues, Theo de Barros, Fagner, Belchior, Leci Brandão, Sérgio Reis, Renato Teixeira, Almir Satter, Monarco, Ivone Lara, Almir Guineto, Jane Duboc, Leny Andrade, Cristina, Oswaldo Montenegro, Francis Hime, Marcus Vinicius, Roberto Menescal, Sérgio Ricardo, Jards Macalé, Fátima Guedes, Tavinho Moura, Elza Soares, Ataulfo Alves Jr., João Donato, Joyce, Dominguinhos, Tom Zé, Tetê Espíndola, Vânia Bastos, Eduardo Gudin, Carlinhos Vergueiro, Zizi Possi, Walter Franco, Johnny Alf, Claudete Soares, Elton Medeiros, Cláudio Nucci, Zé Renato, Alaíde Costa, Emílio Santiago, Moraes Moreira, Carlos Lira, Germano Mathias, Amelinha, MPB-4, Quarteto em Cy, Olívia Hime, Olívia Byington, Fafá de Belém, Miucha, Kleiton e Kledir, Sá e Guarabyra, Guilherme Arantes, Cida Moreira, Ednardo, Luiz Melodia, Duardo Dusek, Anastácia, Nando Cordel, Cátia de França, Gerônimo, Marinês, Demônios da Garoa, Lula Barboza, Reinaldo, Wilson Moreira, Sueli Costa, Paulo César Pinheiro, Célia, Pery Ribeiro, Luiz Vieira, Carmélia Alves, Irmãs Galvão, Cauby Peixoto, Ângela Maria, Paulinho Tapajós, Mestre Ambrósio, Arthur Moreira Lima, Paulo Moura, Sivuca, Turíbio Santos, Sebastião Tapajós, João Carlos Assis Brasil, Nelson Freire, Mário Zan, Wagner Tiso, Egberto Gismonti, Toninho Horta, César Camargo Mariano, Heraldo do Monte, Hermeto Pascoal, Nonato Luiz, Armandinho, Izaías Bueno de Almeida, Déo Rian, Altamiro Carrilho, Carlos Poyares, Maurício Einhorn, Naná Vasconcelos, Quinteto Violado, Antônio Adolfo, Renato Borghetti, Orquestra Tabajara e toda e qualquer orquestra.

Poderíamos continuar citando mais duzentos ou trezentos nomes de primeira grandeza que já integraram os casts das multinacionais, mas foram excluídos ou se retiraram em conseqüência da estratégia monopolista que ganhou terreno nos anos 70 e consolidou-se na década de 90: vender o máximo de cópias do mínimo de títulos, através do uso generalizado do jabá.

Djavan seria um bom nome para encabeçar a lista, pois lança em julho seu novo CD pela Luanda Records. Mas, para que não fique a impressão de que a música brasileira vive uma crise de renovação, preferimos prosseguir destacando alguns artistas cujas discografias foram construídas, desde o início, dentro das pequenas gravadoras nacionais e da produção independente: Antônio Nóbrega, A Barca, Quinteto em Branco e Preto, Yamandu Costa, Mônica Salmaso, Vanessa da Mata, Dorina, Ceumar, Xangai, Paulo Simões, Ná Ozzetti, Moacyr Luz, Guinga, Celso Viáfora, Tom da Terra, Flor Amorosa, Vésper, Comadre Florzinha, Renato Motha, Titane, Zé Geraldo, Neto Fagundes, Filó Machado, Rosa Passos, Márcia Salomon, Carmen Queiróz, Fábio Paes, Pedro Osmar, Maricenne Costa, Arrigo Barnabé, Rumo, Vital Farias, Paulinho Pedra Azul, Sérgio Santos, Ana de Holanda, Gereba, Jussara Silveira, Marlui Miranda, Vicente Barreto, Dércio Marques, Josias Sobrinho, Suzana Salles, Selmma Carvalho, Vange Milliet, Simone Guimarães, Nilson Chaves, Passoca, Glória Gadelha, Walter Alfaiate, Délcio Carvalho, Noca da Portela, Luis Tatit, Pedro Camargo Mariano, Bule-Bule, Oliveira de Panelas, Celso Machado, João de Aquino, Maurício Carrilho, Túlio Mourão, Cristóvão Bastos, Banda Mantiqueira, Nelson Ayres, Laércio de Freitas, Banda de Pífanos de Caruaru, Dinho Nascimento, Antônio Madureira, Papete, Osvaldinho da Cuíca, Paulo Freire, Roberto Correia, Milton Edilberto, Duofel, Radegundis Feitosa, JP Sax, Quarteto Maogani, Caíto Marcondes, Hamilton de Holanda, Nó Em Pingo D’ Água, Aquilo Del Nisso, Pagode Jazz Sardinha’s, Cézar do Acordeon, Luis Carlos Borges, Oswaldinho, Quarteto de Cordas da Paraíba, Madeira de Vento, Choro de Varanda, Jota Gê, Bocato, Uakty, Rodoldo Stroeter, Paulo Bellinati, Benjamin Taubkin, Ulisses Rocha, Teco Cardoso, Jazz Sinfônica. Neste ítem, poderíamos relacionar também mais cem ou duzentos artistas de primeira linha.

Somando os casts atuais da Warner, Universal, Sony, BMG e Emi, não encontraremos mais que trinta e cinco artistas desse nível.
O caudal de criatividade e diversidade que nutre as gravadoras nacionais e a produção independente, e mantém viva a música brasileira, vem sendo posto cada vez mais longe da mídia e do público pela praga do jabá. Segundo informações fornecidas pelo sr. André Midani, alto executivo da indústria fonográfica por mais de 40 anos, a despesa anual das cinco majors com jabá, no Brasil, fica entre R$ 71 milhões a R$ 95 milhões.

O resultado dessa política foi a crise do mercado. O faturamento da indústria fonográfica caiu de R$ 1,4 bilhões para R$ 1 bilhão, entre 1998 e 2002 – os dados de 2003 ainda não foram divulgados pela ABPD (Associação Brasileira de Produtores Discográficos). Embora as majors tenham posado de vítimas, atribuindo a crise à pirataria, é fácil verificar que a venda de CDs falsificados é apenas uma das conseqüências – e não a mais grave – da estratégia criminosa de corromper os meios de comunicação para manipular a demanda e concentrá-la sobre um número cada vez mais reduzido de lançamentos.

Poderia parecer que Warner, Universal, Sony, BMG e Emi mudariam de estratégia ao contabilizarem os prejuízos e avaliarem os riscos impostos à galinha dos ovos de ouro. Como isso não ocorreu, é de se supor que estejam sendo tangidos pela crença de que o desfibramento da música brasileira lhes possibilitará, finalmente, ganhar o mercado para o pop internacional – sonho seguidamente frustrado pela obstinada resistência do povo a consumir prioritariamente música cantada em inglês.

Miopia ou sabotagem, o fato é que o principal papel cumprido pelo jabá tem sido o de impedir que o público tenha acesso à maior parcela do que de melhor se produz em termos de música brasileira. Mais do que um meio imoral e ilegal de promover as vendas, o jabá converteu-se numa forma intolerável de censura.
Na abertura do Fórum Cultural Mundial, o presidente Lula sublinhou a necessidade de não nos rendermos à constatação de que “a produção cultural no mundo é dominada por uns poucos oligopólios”. O Brasil é um exemplo de como essa dominação é exercida: reduzindo drasticamente as gravações de música brasileira e usando o jabá para impedir que a produção feita à sua revelia chegue ao público.

O patrimônio musical brasileiro, apesar de vasto, não é inesgotável. Sem que o povo tenha acesso aos seus melhores frutos, através do rádio e da televisão, mais cedo ou mais tarde ele acabará sofrendo uma atrofia de graves proporções.

O Ministério da Cultura pode continuar fingindo que isso não é de sua conta. Talvez o ministro sinta-se até constrangido por ser um dos últimos sobreviventes do cast da Warner, condição que certamente não facilita a intervenção isenta do ministério na questão. Mas sem uma ação governamental firme, que obrigue as multinacionais a praticarem a concorrência, como determinam as leis vigentes, os prejuízos à cultura e à economia nacionais tornar-se-ão incalculáveis.

Ao contrário de outros prestigiosos setores da cultura brasileira, o que as gravadoras nacionais e artistas independentes cobram do Estado não é dinheiro para a produção. O que o setor pretende é que sua produção, que é maior e melhor que a das multinacionais, não continue sendo impedida de circular, pela prática imoral e criminosa do jabá.

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6.Brasília combate o Jabá

A Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados aprovou no dia 16 de março último o Projeto de Lei 1048/03, do deputado Fernando Ferro (PT-PE), que proíbe as emissoras de rádio e televisão de receber dinheiro ou qualquer outra vantagem para privilegiar a execução de uma música, prática conhecida no mercado como "jabaculê", ou simplesmente "jabá".

A proposta, que acrescenta dispositivo ao Código Brasileiro de Telecomunicações, prevê pena de detenção de um a dois anos para proprietário, gerente ou funcionário de emissora que descumprir essa determinação. A emissora também estará sujeita à multa, suspensão ou cassação da concessão governamental.

Segundo o autor da proposta, a idéia é tornar os veículos de comunicação mais democráticos, ao favorecer o acesso de músicos que gravam em selos independentes e não têm condições de pagar pela divulgação de seus trabalhos.

Ao defender a aprovação do projeto, o relator na Comissão, deputado Paulo Rubem Santiago (PT-PE), observou que a medida fortalece a cultura nacional, pois cria condições para o tratamento igualitário aos artistas e às produções musicais.

A proposta segue agora para análise das comissões de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática; e de Constituição e Justiça e de Cidadania. Depois irá para o
Plenário.

Fonte: Luciana Mariz - Agência Câmara de Notícias.

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7.A pirataria de CDs e o flagelo do “jabá”

Aferradas à estratégia monopolista de vender o máximo de unidades no mínimo de títulos - a poderosa Warner Music Brasil tem em seu cast apenas 14 artistas, entre bons, regulares, ruins e péssimos -, as cinco multinacionais que controlam a indústria fonográfica no país (Warner, Sony, BMG, Universal e Emi), pagam para que suas gravações sejam marteladas até a saturação nas emissoras de rádio e televisão, em detrimento do variado repertório musical nacional de qualidade, favorecendo a ação dos piratas que só viceja em ambiente de demanda altamente concentrada.

SÉRGIO RUBENS DE ARAÚJO TORRES

Em seu relatório de 2003, a ABPD (Associação Brasileira de Produtores Discográficos) informou que, em 2002, a venda de CDs piratas, no Brasil, atingiu a cifra de 115 milhões de unidades. Diz ainda o relatório que esse número correspondeu a 59% do total de CDs vendidos. E assegura que tal fato é responsável pela crise que atravessa o nosso mercado musical.

A crise é real e aguda. De 6º lugar no ranking mundial de venda de discos, o Brasil caiu para 13º, sendo ultrapassado por países de reduzida tradição musical como a Austrália. Essa queda não se deve apenas à expansão mais lenta do mercado nacional em relação aos demais. De 1998 a 2002 o faturamento da indústria fonográfica despencou de R$ 1,4 bilhões para R$ 1 bilhão. 

ESTRATÉGIA MONOPOLISTA 

A explicação, porém, deixa muito a desejar.

Primeiro: A ABPD não diz e nem poderia dizer como obteve essa cifra de 115 milhões de CDs piratas. Trata-se de uma informação tão merecedora de crédito quanto a afirmação dos dirigentes das cinco multinacionais que a controlam – Warner, Sony, BMG, Universal e Emi – de que não pagam para que suas gravações sejam tocadas até a saturação nas emissoras de rádio e televisão.

Segundo: Ainda que o número correspondesse à realidade, seria necessário não omitir do relatório que o maior responsável pelo estímulo e promoção à venda de CDs piratas, no Brasil, é, exatamente, o uso e abuso do jabá pelas cinco gravadoras multinacionais.

Aferradas à estratégia monopolista de vender o máximo de unidades do mínimo de títulos, essas empresas cada vez mais reduzem e empobrecem o repertório musical martelado pelos meios de comunicação, favorecendo a ação dos piratas, cuja estratégia é idêntica. 

BONS, REGULARES, RUINS E PÉSSIMOS 

Não fosse o flagelo do jabá, a vasta riqueza, diversidade e qualidade pela qual a música brasileira conquistou reconhecimento internacional se imporia naturalmente aos meios de comunicação nacionais. A quantidade de CDs vendidos aumentaria, ainda que o número de peças por título, dos “campeões de vendas”, reduzisse. A diversidade de opções desestimularia a pirataria, que só viceja em ambiente de demanda altamente concentrada. Nosso sobrecarregado aparato policial poderia concentrar-se em prioridades de mais elevado coturno. A poderosa Warner Music Brasil (R$ 170 milhões de faturamento anual) não precisaria continuar submetida à vexatória situação de ter um cast composto por apenas 14 artistas – entre bons, regulares, ruins e péssimos. A BMG poderia substituir astros do naipe de Louro José e Swing & Simpatia por algo mais consistente. O nosso preclaro amigo Dudu Nobre não teria que passar pelo constrangimento de dividir seu disco com os bambas Gabriel O Pensador, Arnaldo Antunes, MV Bill, nem reivindicar influências do Cazuza, no programa da Gabi. 

NACIONAIS E INDEPENDENTES 

Então, por que as multis seguem aferradas ao jabá, mesmo quando isso favorece os piratas que lhes garfam uma fatia do mercado?

Antes do advento da tecnologia digital, era impossível produzir um disco sem passar por uma gravadora. Só elas possuíam os estúdios de gravação e as misteriosas engenhocas que produziam as matrizes e cópias. Tais meios de produção complexos e caros, outrora, garantiam o controle sobre a produção de discos a quem tivesse e pudesse investir vultosos recursos para adquiri-los. 

SUBORNO 

Hoje, os estúdios de gravação e as empresas que copiam os CDs não estão mais necessariamente dentro das gravadoras. Estas deixaram de ter não só o monopólio sobre os meios de produção, como inclusive desativaram total ou parcialmente seus imponentes parques industriais. Os artistas passaram a ter como produzir seus discos fora das gravadoras. Criá-las deixou de ser um negócio oneroso, fortalecendo os portadores de cultura, inteligência e sensibilidade musicais em relação aos detentores do capital. Surgiram dezenas de gravadoras nacionais e centenas de artistas independentes cuja produção, tomada em conjunto, ultrapassou largamente a das cinco irmãs, tanto em qualidade quanto em quantidade. De janeiro a junho de 2004, para cada novo lançamento das majors, as independentes lançaram pelo menos cinco títulos.

Perdendo o controle sobre a oferta, as grandes gravadoras deslocaram o peso de seu poder econômico para açambarcar o espaço público da comunicação e manipular a demanda, a fim de manterem o monopólio sobre a venda de CDs. E não se detiveram ante o fato de terem que fazê-lo através do suborno, já que não há um meio legal de obter o mesmo resultado.

A prática generalizada do jabá trouxe em sua esteira a possibilidade de converter nulidades em “campeões de vendas”, pela superexposição de seus atributos na mídia comprada por debaixo dos panos. Qualidade e diversidade, marcas registradas da música brasileira, foram substituídas pelo seu avesso, nos meios de comunicação e nas prateleiras das lojas. Os diretores artísticos das grandes gravadoras cederam lugar aos gênios do marketing. Os casts minguaram. E chegamos aos dias de hoje.

Warner, Sony, Universal, BMG e Emi lançam cada vez menos títulos e clamam aos céus contra os piratas – que conseguem expor numa minguada banquinha de camelô toda a formidável produção fonográfica de um ano inteiro, das cinco juntas. Mas recusam-se a abrirem mão do jabá, para não terem que competir de modo honrado com a produção das gravadoras nacionais e artistas independentes.

O que temem? Que essa renúncia possa levar Kelly Key a vender menos que Gal Costa? Que Almir Satter ultrapasse Os Detonautas? Que Beth Carvalho bata Os Travessos? Que Bethânia supere Babado Novo? Que o Quinteto em Branco e Preto atropele Os Mulekes? Que Geraldo Azevedo passe Pedro & Thiago? Que Rouge, Jota Quest, Marcelo D2, Ivete Sangalo, Carla Xibombom Cristina, Exaltasamba, Belo e outras crias do jabá sejam reduzidos à sua dimensão real? Que Sérgio Reis, Fagner, Walter Alfaiate, Johnny Alf, Alceu Valença, Nei Lopes, Tom Zé, Vital Farias, Armandinho, Elomar, Izaías do Bandolim, centenas de artistas expulsos dos casts das cinco multinacionais e outros tantos aos quais elas cerraram as portas possam tomar-lhes o mercado? Mas seus chairmen não acreditam no que dizem? Não são os especialistas em perceber e gravar a música que o povo quer ouvir?

Em entrevista concedida aos jornalistas Pedro Alexandre Sanches e Laura Mattos (maio de 2003), o sr André Midani, que exerceu vários cargos de chefia na indústria fonográfica, por mais de 40 anos, além de haver admitido a prática do crime, revelou que os “orçamentos publicitários” das cinco multinacionais variam “entre 12% e 16% das vendas” e que o jabá “chega a representar 70% das verbas publicitárias”. 

FAVORECIMENTO 

Considerando o faturamento das cinco, estamos diante de cifras que vão de R$ 71 milhões a R$ 95 milhões empregados anualmente nessa modalidade criminosa de marketing. Mas isso não é tudo. Em função de um convênio que absurdamente sobrevive até hoje, as cinco gravadoras multinacionais são favorecidas pela isenção de 40% do ICMS devido aos cofres públicos, o que lhes garante a bagatela de R$ 61 milhões para que as despesas com suborno não onerem em demasia seus custos de produção. Não há como fugir à didática conclusão de que, além de se constituir em prática corrupta e criminosa, exercida para eliminar a concorrência através da manipulação do mercado, o jabá tem sido patrocinado fundamentalmente por dinheiro público desviado de suas funções precípuas. 

PIRATAS E PIRATAS 

No Aurélio, a palavra pirata apresenta como sinônimos as expressões gatuno, espertalhão, tratante, malandro, ladrão. O termo, portanto, não serve apenas para caracterizar a rede de produção e comercialização de CDs falsificados. Também cabe perfeitamente para qualificar a ação realizada no Brasil pela Warner, Sony, Universal, BMG e Emi. Há, no entanto, duas diferenças. A ação dos primeiros não é pior, nem causa mais prejuízos à nossa cultura, naquilo que ela tem de mais expressivo, a música brasileira, do que a ação dos segundos. Extinguindo-se a pirataria dos maiores reduzir-se-ão significativamente os atrativos à pirataria dos menores, mas a recíproca não é verdadeira.

O Ministério Público, Polícia Federal, Ministério da Justiça, Ministério do Desenvolvimento, CADE, Ministério das Comunicações, Ministério da Cultura e Congresso Nacional devem levar isso em conta, para que não se estimule a pirataria a pretexto de combatê-la. 

QUALIDADE  ALIJADA 

O que não se pode perder de vista é que não é justo, e sobretudo não é salutar ao desenvolvimento econômico e cultural do país, que gravadoras nacionais e artistas independentes, tendo lançado mais de 4.000 títulos diferentes de CDs, que contêm a maior parcela do que de melhor foi produzido nos últimos 10 anos em matéria de música brasileira, sigam alijadas do espaço público da comunicação e, conseqüentemente, das estantes das lojas pelo flagelo do jabá. 

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8.A Cobrança do ECAD!

"Sou empresário artístico e quero fazer um show no Maracanã com um grande astro pop, aberto pelo grupo É o Tchan. Quanto e como deverei pagar ao ECAD?"
Normando R., Salvador, Bahia

A cobrança praticada pelo ECAD, se houver venda de ingressos, é na base de 5% ou 10% sobre a bilheteria, dependendo da habitualidade ou eventualidade do empresário na promoção de espetáculos desse tipo. O valor apurado será pago através de boleto bancário emitido pelo ECAD. Se não houver venda de ingressos, a cobrança será efetuada com base em uma estimativa de público cujo número, multiplicado pelo valor da UDA (Unidade de Direito Autoral) vai resultar numa soma expressa em reais. Para ambos os casos, é possível realizar um pagamento antecipado ou de garantia mínima.

 

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9.O ECAD na prática.
Operacionalidade da Distribuição

No ECAD, as operações de distribuição de direitos iniciam-se com a separação das quantias referentes a Direitos Autorais das quantias referentes a Direitos Conexos. Se a arrecadação dessas quantias foi distinta, sua distribuição terá de ser também distinta. Em nenhuma hipótese tais distribuições devem se sobrepor. A partir daí, tomam-se as determinações seguintes:

Distribuição de Direitos Autorais

Execução verificada em rádio e tv e na pesquisa de música ao vivo:
- estabelece-se o número total de execuções em cada rubrica (rádio, tv e música ao vivo):
- verifica-se o número total de execuções, por rubrica;
- divide-se o total arrecadado pelo número de execuções de cada rubrica, chegando-se ao valor de cada execução nessa rubrica;
- verifica-se quantas vezes as obras apontadas na pesquisa foram executadas;
- multiplica-se o número de execuções de cada uma delas, pelo valor de cada execução antes obtido;
- divise-se o valor final obtido por cada obra, de acordo com o número de execuções, pelos seus titulares (autores e editores);
- as quantias referentes às obras cujos titulares não são identificados, por insuficiência de dados cadastrais, são provisionados, indo integrar a relação de Créditos Retidos.

Execuções verificadas em shows e outros tipos de espetáculos:
- divide-se o total arrecadado (em geral, 10% das bilheterias) pelo número de obras incluídas no programa de cada espetáculo, chegando-se ao valor devido a cada obra incluída;
- divide-se o que cabe a cada obra entre seus titulares (autores e editores);

Direitos Conexos

São os Direitos a que fazem jus os intérpretes, músicos executantes e produtores fonográficos pela execução pública dos fonogramas de que participam;

- verifica-se o total arrecadado pela execução de fonogramas (gravações), em rádio, tv, etc;

- divide-se o total arrecadado pelo número total de execuções de fonogramas, obtendo-se o valor de cada execução;

- verifica-se quantas vezes os fonogramas apontadas na pesquisa foram executados e multiplica-se o número de execuções de cada um deles pelo valor de cada execução antes obtido;

- divide-se o valor final obtido por cada fonograma, de acordo com o número de suas execuções, pelos seus titulares, aplicando-se a “chave-de-partição” que estabelece os percentuais que cabem a cada tipo de titular envolvido. P.Ex:33,33% para intérpretes, 33,33% para os músicos executantes, 33,33% para produtores fonográficos.

 

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10.Conexão Tecnológica
(Eugênio de Castro)

MSR – MOVIMENTO dos SEM RÁDIO

(MPB SEMPRE)

Esse mês quero dar destaque especial a um assunto que vem sendo muito comentado e discutido ultimamente nos meios culturais. Alguém poderia citar um movimento muito importante que está ocorrendo no Brasil nesse exato momento? Se você pensou no MST(movimento dos Sem Terra)...você ERROU !!!, eu me refiro ao MSR( Movimento dos Sem Rádio). O nome é até mesmo curioso, mas o movimento é real, tem o seu núcleo de atuação em São Paulo, e vem cada vez mais se espalhando pelo Brasil inteiro.

O Movimento dos Sem Rádio começou quando uma Emissora de rádio de São Paulo – a Musical FM, que tocava 100% de música brasileira, foi comprada por um grupo religioso. O único problema desse negócio - cada vez mais comum hoje em dia - , é que essa era a única e última rádio que tocava só MPB nas terras paulistanas. Os seus ouvintes, que não eram poucos, e os próprios artistas, que só eram executados nessa rádio, ficaram indignados. Houve então uma grande manifestação pelas ruas e em alguns redutos culturais como o Museu de Arte de SP, pedindo a volta da Musical FM e o apoio à Música Popular Brasileira. O movimento, apelidado de Movimento dos Sem Rádio, se alastrou rapidamente através da Internet, e em pouco tempo, causou uma grande polêmica em torno do tema. O que era apenas uma manifestação pela volta dessa emissora, se transformou numa bandeira de defesa e apoio a produção musical do país. Foi criado um fórum de discussões, onde todos os assuntos são debatidos, e de onde são articuladas as ações do movimento, que tem participado assiduamente de shows e outros eventos de grande porte em São Paulo.

A causa tem ganhado aos poucos a atenção dos jornais e revistas, tendo saído até na Veja e Folha de SP. Muitos artistas já estão a par do movimento como Gilberto Gil, Zeca Baleiro, Zélia Duncan, Vânia Abreu, Jair Rodrigues, Chico César, Lenine e outros. A idéia é se criar uma discussão permanente sobre uma das melhores músicas do mundo, que a música brasileira. O MSR quer trazer de volta ao grande público tantos e tantos artistas que não encontram mais lugar nos meios de comunicação.

O movimento tem um site na Internet que pode ser acessado em www.mpbsempre.com.br , onde todas as informações podem ser encontradas. O movimento é aberto ao público e pessoas de qualquer parte do país podem participar. Em breve o MSR deve se transformar numa ONG (Organização Não Governamental) em defesa da MPB. Acho que vocês artistas, músicos e leitores do Correio Musical deveriam conhecer mais esse movimento e ficar atentos a forma como a música brasileira vem sendo exterminada e maltratada. Muita gente boa e pouquíssimo espaço para se tocar. Reconhecimento e sucesso só com a benção das grandes gravadoras. E as Rádios? Por que não tocam? E$$a desculpa de que não tem público é papo furado. É só tocar no rádio por algum tempo, que aparecem milhares de pessoas que vão curtir centenas de ótimas e desconhecidas músicas. O problema é que querem uma unanimidade burra, milhões de pessoas go$tando da mesma música, do mesmo e$tilo. E a resposta para esse comportamento de massificação é simples: Dinheiro!

Como não podemos mudar o mundo de uma só vez, vamos pelo menos manifestar as nossas vontades e concretizar a nossa cidadania. Eu quero dar os parabéns a todo o pessoal do Movimento dos Sem Rádio, pela determinação e coragem de expressar os seus pensamentos, e principalmente por não ficarem simplesmente de boca calada, assistindo passivamente ao extermínio daquilo que amam. Acho que todas as pessoas devem procurar se organizar em torno de ideais que acreditam, seja no meio musical ou na comunidade de bairro. Se nós não cuidarmos do nosso próprio país, do nosso próprio destino, então quem haverá de cuidar?

Um grande abraço galera e até a próxima. Continuaremos a falar de MP3 no próximo artigo. Fiquem de antena ligada!

Se você ainda não ouviu a Rádio dos artistas independentes, então conecte-se agora mesmo na Internet, é só digitar www.newview.com.br/krillrecords e depois clicar na antena! Divirta-se!

EUGÊNIO DE CASTRO é sócio dos estúdios Krill Records & Hi Tech Master. Músico e compositor, estudou na Fundação Artística de Belo Horizonte e fez cursos de gravação e Midi nos USA. Trabalhou como consultor midi da Banda 14 Bis. Presta serviços de consultoria para estúdios e profissionais da área. Contatos : (031) 372-4054 ou pelo e-mail krillrecords@newview.com.br

 

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11.Multis boicotam produção musical brasileira para favorecer a da matriz

Sonia Palhares (BsB-DF)
23 Jul 2004

Extraído do Jornal HORA DO POVO.

 

As multinacionais perderam dinheiro na década de 70 porque tentaram estabelecer a ferro e fogo a hegemonia do pop internacional sobre o nosso mercado. Como não tiveram sucesso, mesmo pagando jabá, tiveram que recuar.

Para continuarem lucrando com a música brasileira, mas sem fortalecê-la além da conta, foram criando os monstrinhos sustentados pelo jabá. A questão, para as multinacionais, não é - e nunca foi - a falta de retorno do investimento feito na música brasileira de qualidade. O problema é que esta representa uma barreira à hegemonia do pop/rock no Brasil e uma ameaça ao
seu domínio mundial.

No ano de 2001, quando pretendia que o governo FHC colocasse a Polícia Federal sob comando da APDIF (Associação Protetora dos Direitos Intelectuais Fonográficos), na repressão à venda de CDs falsificados, o sr. Luís Oscar Niemeyer, da BMG, uma das cinco multinacionais que pirateiam o nosso mercado fonográfico, formulou a seguinte ameaça:

“Obviamente se existem hoje todos os grandes artistas que aí estão eles tiveram seus trabalhos financiados pelas gravadoras... Se nosso papel como investidores e descobridores de talentos for extinto, a produção musical brasileira vai acabar... A música internacional a gente recebe pronta, é só prensar os discos e vender.”

PRESUNÇOSOS, IGNORANTES, INCOMPETENTES...

Esta e outras citações transcritas a seguir - retiradas de entrevistas
concedidas ao jornalista Pedro Alexandre Sanches, em julho de 2001 e maio de 2003 - expressam bem o nível dos executivos da indústria fonográfica multinacional, que operam no Brasil: presunçosos, ignorantes, incompetentes e desprovidos do mais rudimentar sentimento de nacionalidade.

O sr. Niemeyer reduz a produção musical brasileira à condição de mera conseqüência dos financiamentos realizados pelas gravadoras multinacionais, quando é público e notório que os recursos gastos por elas destinam-se prioritariamente ao lixo cultural martelado pelas emissoras de rádio e televisão, às custas de um jabá cada vez mais oneroso. É sempre bom lembrar que a produção musical brasileira depende, sobretudo, dos artistas - e principalmente dos que se encontram fora dos casts das multinacionais, produzindo seus discos nas dezenas de gravadoras nacionais ou fazendo-o de forma independente, ainda que ao preço de serem crescentemente privados do acesso à mídia e ao público.

OBRIGADOS A ENGOLIR A MÚSICA BRASILEIRA

Mas é importante que o representante da BMG tenha admitido, com toda a crueza, que prensar e colocar à venda os discos de música internacional – leia-se música americana - seja mais fácil, mais barato e mais conveniente às multinacionais. Difícil, mesmo, é fazer com que o povo os compre. A despeito de todos os investimentos feitos pelas majors, a música internacional não ocupa mais que 20% do mercado nacional de venda de CDs. Essa é a única razão pela qual BMG, Warner, Universal, Sony e Emi gravam música brasileira. Se lhes fosse possível dominar o mercado com a venda dos produtos da matriz, há muito já o teriam feito. Como não podem, são obrigadas a engolir a música brasileira. Realmente, é preciso nutrir um profundo recalque contra a nossa música para pagar às emissoras de rádio e televisão pela exibição dos talentos de Swing & Simpatia, Kelly Key, Rouge, É o Tchan, Detonautas, Jota Quest, Belo, Babado Novo, Os Mulekes, Paulo Ricardo, Os Travessos, Kid Abelha, Carla Xibombom Cristina e outras bizarras
crias do jabá.

FANTASIA

A fantasia de que a produção musical brasileira existe como uma dádiva das multinacionais é compartilhada por outros gênios da indústria fonográfica. O sr. Marcos Maynard, que ligou-se à Emi depois de haver provocado a falência da Abril Music, em 2003, apresentou a seguinte versão sobre a causa da existência de maior diversidade e qualidade nos casts das multinacionais, até os anos 70:

“As multinacionais ganhavam tanto dinheiro lá fora que podiam perder dinheiro aqui. Perderam todo dinheiro que queriam aqui, jogaram dinheiro fora. Aí acabou a era bonita, fecharam a torneira. Dos anos 70 para os 80 disseram: ‘Agora vocês têm que ganhar dinheiro, parem de perder dinheiro’”.

O sr. André Midani, que exerceu vários cargos na indústria fonográfica, ao longo de 40 anos, lança mão de raciocínio semelhante, ao apontar o motivo da generalização do jabá:

“A coisa começou a degringolar quando as companhias de discos e seus conglomerados foram comprados por megainvestidores que tinham suas ações no mercado de Wall Street. Paulatinamente a indústria fonográfica, que era talvez uma indústria de relações públicas, de imagem, passou a ser um centro de lucro completo”.

O que ambos sustentam é que Tom Jobim, Pixinguinha, Chico Buarque, Paulinho da Viola, Ari Barroso, Gonzagão, Milton Nascimento, Noel Rosa, Dorival Caymmi, Villa-Lobos não dão retorno financeiro. Que a música brasileira, reconhecida mundialmente pela sua qualidade, só foi gravada por liberalidade das multinacionais, porque estas estavam mais interessadas na imagem do que
no lucro.

Na realidade, o que ocorreu foi exatamente o contrário. As multinacionais perderam dinheiro, na década de 70, justamente porque tentaram estabelecer a ferro e fogo a hegemonia do pop internacional sobre o nosso mercado. Chegaram a dominar 50% da execução pública, para seus produtos gravados em inglês, pagando jabá, evidentemente. Como não ultrapassaram a barreira de 30% nas vendas, tiveram que recuar. Para continuarem lucrando com a música brasileira, mas sem fortalecê-la além da conta, foram criando os monstrinhos sustentados pelo jabá.

A questão, para as multinacionais, não é - e nunca foi - a falta de retorno do investimento feito na música brasileira de qualidade. O problema é que esta representa uma barreira à hegemonia do pop/rock no Brasil e uma ameaça ao seu domínio mundial.

Que outra razão pode haver para que BMG, Warner, Universal, Sony e Emi se recusem a vender música brasileira fora do Brasil?

Diz o sr. Niemeyer, da BMG, que “só existe um país no mundo que exporta menos música que o Brasil em nível comercial de vendas: é o Japão”. O sr. Aloysio Reis, da Emi, argumenta que “há um outro aspecto frágil da música brasileira, ela só vende no Brasil.” Como conciliar as duas afirmações com a do sr. Márcio Gonçalves, da ABPD (Associação Brasileira de Produtores Discográficos) - entidade que representa as cinco megacorporações:

“Se o Brasil é conhecido hoje no mundo, é pela música, não é nem pelo futebol.”

Se a música brasileira tem esse papel, por que BMG, Warner, Universal, Sony e Emi não conseguem exportá-la? Porque não têm interesse em abrir o mercado para quem pode concorrer com o seu produto mais característico – pop/rock e derivados. Preferem perder dinheiro com curiosas tentativas de fazer Alexandre Pires parecer Julio Iglesias ou Sandy virar Shakira, a oferecerem ao mundo a nossa música, tal como ela tornou-se conhecida e admirada.

CRISE NO MERCADO

A opção crescente das multinacionais pelo trinômio autofágico - artistas inconsistentes, uso generalizado do jabá e política de vender o máximo de unidades do mínimo de títulos - trouxe a crise ao mercado nacional. O faturamento da indústria fonográfica caiu de R$ 1,4 bilhões para R$ 1 bilhão, entre 1998 e 2002. As majors responsabilizam a venda de CDs
falsificados, porém esta é apenas conseqüência – e não a mais grave – da estratégia criminosa de corromper os meios de comunicação para manipular a demanda e concentrá-la sobre um número cada vez mais reduzido de lançamentos.

Por outro lado, o caudal de criatividade que nutre as gravadoras nacionais e a produção independente, responsável por mais de 4.000 títulos de CDs, que contêm a maior parte do que de melhor foi produzido nos últimos 10 anos em matéria de música brasileira, vem sendo posto cada vez mais longe da mídia e do público pelo flagelo do jabá. Mais do que um meio imoral e ilegal de promover as vendas, o jabá converteu-se numa forma intolerável de censura.

Segundo informações fornecidas pelo sr. André Midani, a despesa anual das majors com essa modalidade de suborno, no Brasil, é de R$ 71 milhões a R$ 95 milhões. Porém uma absurda isenção de 40% do ICMS lhes devolve a quantia de R$ 61 milhões, para que seus custos de produção não sejam muito onerados.

AÇÃO GOVERNAMENTAL

Na segunda metade do século XVI, o litoral brasileiro foi saqueado por cinco festejados expoentes da pirataria anglo-saxônica: Edward Fenton, Robert Withrington, Christopher Lister, Tomas Cavendish e James Lancaster. Nomes e métodos já não são mais os mesmos, mas os objetivos e as conseqüências pouco mudaram. A situação clama por uma ação governamental que faça cessar os abusos cometidos pela BMG, Warner, Universal, Sony e Emi contra o nosso
mercado fonográfico.

A música brasileira é para eles um problema. Mas para as gravadoras nacionais e artistas independentes é solução, por isso, a despeito de serem empresas de pequeno porte, sua produção, tomada em conjunto, tornou-se incomparavelmente maior e melhor que a das multinacionais.

Houvesse um Ministério da Cultura, no Brasil, e sua preocupação primeira estaria sendo a de articular um mutirão nacional para dar visibilidade a essa produção.

Afinal, a música brasileira é ou não o nosso mais bem sucedido produto cultural? É ou não relevante que empresas nacionais e artistas independentes tenham sido capazes de produzir mais e melhor que as multinacionais, sem a necessidade de recorrerem às verbas públicas?

O governo não tem interesse que essa produção dinamize a economia, circulando amplamente no mercado interno e obtendo divisas no mercado externo? Em nome do que deveríamos aceitar que a produção musical brasileira sofra a censura de cinco multinacionais em crise, que não conseguem, todas juntas, manter mais que trinta e cinco artistas de expressão em seus casts?

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12.Ordem dos Músicos
(Em memória de Guerra e de Maurício)

No início de 1990 a AMAR, à frente nosso saudoso Maurício Tapajós, mobilizava seus músicos em torno do nome do imortal maestro César Guerra –Peixe (1914-1993), candidato à presidência do conselho regional da OMB. A chapa do velho Guerra, composta apenas por músicos comprometidos com a luta pela moralização da profissão e da ampliação das conquista sociais da categoria, tinha conseguido impugnar, com base em irregularidades, a eleição realizada no fim do ano anterior. Mas foi afinal derrotada.

Já naquela época a situação da OMB era caótica; e os mesmos nomes que hoje motivam a revolta da maior parte dos músicos já lá estava havia cerca de 1 década.

Sucede, entretanto, que antes da criação da Ordem, “a vida do músico era uma vida de tocar por 10 mil réis a hora; um baile de 5 horas custava 50 mil réis, uma prata” – como contava o falecido músico Gentil Guedes ao Megafone, antigo jornal do Sindicato dos músicos do RJ, em 1985.

A lei que regulamentou a profissão de músico no Brasil, assinada por Juscelino Kubitschek e criou a OMB, foi uma lei oportuna e encerra , segundo muitos profissionais, dispositivos de grande interesse e utilidade.

Na hora, então, que alguns setores se mobilizaram pela extinção desse órgão, é preciso ter cuidado . É preciso cautela para que não esteja servindo a outros interesses que não o dos músicos; cautela contra uma estratégia maior que estaria , sabe-se lá com que objetos, querendo a desarticulação de todas as organizações da sociedade civil .

Não seria melhor, talvez, derrubar, através dos meios legais, o artigo da lei ou dos Estatutos da OMB que vêm permitindo a perpetuação da situação do poder há mais de duas décadas?

Em atenção à memória de Guerra- Peixe, tão valente guerreiro quanto hábil navegador em águas turvas, achamos bom refletir. Serão os “donos” do OMB mais fortes e poderosos do que a sociedade civil organizada que nos anos 90, devidamente mobilizada, conseguiu até o afastamento de um presidente da República indesejável ? Ou será que nossa categoria não é tão organizada quanto queríamos que fosse?
Guerra-Peixe e Maurício Tapajós, lá em cima, devem ter a resposta.

*topo